Joelmir Pinho

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Crato, Ceará, Brazil
Com origem nos movimentos populares, de onde herdou o gosto pela participação e pela construção coletiva, Joelmir Pinho trabalhou como técnico do Programa de Apoio à Autogestão das Organizações de Agricultores do Perímetro Irrigado Senador Nilo Coelho (Petrolina-PE) e do Programa Nacional de Capacitação Técnica (convênio INCRA/BNB/PNUD), dirigiu o Instituto de Estudos, Pesquisa, Projetos e Assessoria Municipal da Prefeitura de Maranguape e coordenou o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano do mesmo município. Foi consultor do processo de elaboração dos Planos Diretores de Desenvolvimento Urbano dos municípios de Viçosa do Ceará e Ubajara, na Serra da Ibiapaba (Ceará) e integrou a equipe responsável pela elaboração do Projeto de Regularização Fundiária, Urbanística e Edilícia do Município de Fortaleza. Para ver o perfil completo acesse www.joelmirpinho.wordpress.com.

domingo, 6 de abril de 2008

Educando para novas atitudes

Joelmir Pinho
Durante séculos a sociedade moderna foi sendo construída, apoiada em crenças e valores profundamente excludentes, numa lógica que, segundo nos lembra Leonardo Boff, explora e submete os povos aos interesses de uns poucos países ricos e poderosos e que depreda a terra e espolia suas riquezas, sem solidariedade para com o restante da humanidade e para com as gerações futuras.
Essa visão de mundo alicerçada, dentre outras coisas, na idéia de que o homem é o centro de tudo (antropocentrismo), na predominância do masculino e da razão, na redução da realidade a sistemas de entendimento matemáticos lógico-formais lineares e numa postura profundamente utilitarista e irresponsável frente ao planeta e a todas as formas de vida nele existentes, foi instituída em nossa cultura, de forma mais efetiva, a partir do século XVII, com a consolidação do pensamento do filósofo René Descartes e do físico Isaac Newton. Daí a denominação de paradigma cartesiano-newtoniano.A esteira de crenças e valores desse paradigma conduziu-nos para a adoção de posturas que resultaram em relações adoecidas dos seres humanos consigo mesmos e com todo o ecossistema e no desencantamento de nossa relação com o mundo.
Produzimos, ao longo de séculos e por diversos meios, uma consciência ética descuidada, irresponsável e descomprometida que, para Jairo Façanha, sempre nos leva para escolhas insalubres, resultados lesivos e renúncias caras ao tecido social e ao meio ambiente.Em nome do progresso e do sucesso material violentamos a mãe terra, ignoramos nossos idosos e descuidamos das nossas crianças e adolescentes. Roubamos a esperança de nossos jovens e produzimos uma cultura de competição, preconceito, injustiça, intolerância e violência que tem conduzido a humanidade e todo o planeta para um acelerado processo de destruição.
Nesse contexto, a educação tem exercido um papel estratégico na manutenção e fortalecimento do paradigma sobrejacente. Ao longo de décadas, construímos e mantemos um modelo educacional centrado na reprodução de conhecimento e informação, com pouco ou nenhum compromisso com a formação humana de nossos alunos. Essa prática, que enfatiza excessivamente os valores auto-afirmativos (competição, expansão, dominação, etc.) produziu uma realidade extremamente perversa, que tem levado o planeta à exaustão.
O reconhecimento de que é necessária uma profunda mudança de percepção e de pensamento para garantir nossa sobrevivência ainda não atingiu o sistema educacional, que continua a formar “cidadãos” sem qualquer compromisso com o futuro do planeta.Contudo, acredito que tão importante quanto a denúncia do atual modelo de sociedade é o anúncio da possibilidade, necessidade e urgência da construção de um novo paradigma, cujas pilastras vêm sendo (re)erguidas, nas últimas décadas, a partir da contribuição teórica de vários estudiosos, em estreita sintonia com as tradições de comunidades primitivas de todo o planeta.Na base de valores e crenças desse novo paradigma a idéia de que somos parte de um todo - integrados à grande teia da vida e portanto, interdependentes.
Essa nova visão de mundo fundamenta-se na compreensão de que este se configura como uma rede de relações onde todas as coisas estão essencialmente interligadas e incluídas num movimento permanente de criação e mudança.A cada dia tem se reforçado a crença de que novos valores, posturas e atitudes possam vir a ser assumidos pelos seres humanos no planeta, impelindo a busca de relações mais solidárias, espiritualizadas, dialógicas e harmônicas, que tenham como princípio o respeito pela vida e pelo mundo natural que nos sustenta. Voltando à educação e com base nessas reflexões, parece-me urgente revermos nossas práticas educativas - dentro e fora das salas de aula - no sentido de construirmos, desde já, uma nova visão de mundo que reconheça “a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos)."
A esse respeito, Miguel A. de Araújo nos lembra que “o conhecimento veiculado nas práticas educativas deve conduzir educandos e educadores para a percepção dos imponderáveis, dos paradoxos e enigmas da vida, da natureza, do universo para que cultivemos a espiritualidade, a dimensão poética do cosmos, estabelecendo assim, com este, uma relação de respeito, admiração, simpatia e coexistência fraternizante, dinâmica e criadora”.
Por último, penso que precisamos assumir - individual e coletivamente - o compromisso cidadão de contribuir para a construção de um novo mundo, onde o amor, a tolerância, a solidariedade, a paz, a troca de energias, o respeito à vida e vários outros valores não se restrinjam aos sonhos, mas passem a povoar nosso cotidiano. Precisamos urgentemente reaprender a caminhar como parentes que somos, se não quisermos perecer ante às ilusões do atual modelo de sociedade. Essa é a nova missão. Esse é o novo sonho, possível!

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